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Imagem: Gerrit A. Beneker / Telephone operator (a weaver of public thought) (1921)

Editorial Passo muito tempo no transporte público. Tanto tempo que a questão de como passar esse tempo que passo dentro do transporte público se impõe. De maneira geral, a questão se coloca em termos de buscar algo para fazer, aquele artigo cansativo que guardei no celular para ler quando não estivesse fazendo nada, achar um jornal no chão pra folhear, fechar os olhos e tentar fazer o corpo achar que está dormindo, quem sabe assim recupera um pouco do sono que não teve à noite, e por aí vai. A outra opção é encarar as pessoas ao redor. Discretamente, claro. Geralmente não é minha opção. Um dia desses uma jovem esperou o momento de sair do metrô para, subitamente, soltar um grito de indignação contra as pessoas que usam o assento preferencial sem se encaixarem no perfil do assento preferencial. Meu reflexo imediato foi o de me indignar junto com ela, mas olhando ao redor, não consegui encontrar nenhum uso particularmente inadequado. Ao contrário, alguns assentos estavam livres. Talvez eu não tivesse entendido? Talvez fosse um grito tardio, contra outro momento, outro espaço-tempo de outro metrô? Outro dia, havia um segurança sentado na cadeira que fica rente à porta de saída. Não estava à trabalho, não era o segurança do metrô, em outro momento do dia seria o segurança de algum outro lugar, de uma loja de bolsas de cinco mil reais ou de um centro empresarial do centro da cidade, mas ali era alguém que começava a entrar de folga ou saía dela, como quase todos os outros ao redor. Mas estava de uniforme.

(clique aqui e leia a íntegra do editorial)

 

Inverno-Primavera 2016

RaimundA

 

Contos

Corpo no corpo

de Ana Rüsche

Venha. O Centauro gargalha e balança a cabeça. Não vou. A ameaça da quentura me asfixia uma vez mais, aquela brasa lá de dentro. Arrefeci.

A mulher que se escamou

de Caroline Policarpo

Um dia, no banho, ela percebeu escamas na pele. Escamas mesmo, não é modo de falar, não quer dizer apenas aquele enrugar normal da pele molhada. Escamas mesmo.

Cadernos berrinenses

de Drielle Alarcon

a berrini rasgou a cidade e silenciou uma várzea de rio para criar um novo pólo empresarial. com ele, vieram tipos, discursos e imaginários próprios do universo corporativo.

Seu fastio

de Natália Zuccala

A mim abandonam-me. Está certo isso? Não sei. Não? Não sei. Sei que abandonam-me. Ligeiros. Sempre passam ligeiros por mim.

A última parte

de Ellen Maria Vasconscellos

O primeiro é situar-se. Depende do planeta inimigo, a escolha da arma. É preciso traçar um método eficaz de sobrevivência, ainda que temporário.

Sobre a confiança

de Giovana Machado

As gotas de água desabavam feito saraivas na praia. Na terra amarela, os pequenos peixes se infiltravam nas poças abertas pelo temporal. O mar parecia um gigante engolindo a imensidão

Uma a mais

de Lena Luiz

Sai de casa tiritando. Melhor sentir um bocadinho de frio agora que ficar suando e carregando tralha mais tarde. Inverno brasileiro é osso.

A peste ou estratégias arriscadas de marketing

de Julia Raiz

Prontuário em síntese: febre alta; exames de sangue em andamento; alucinações noturnas de caráter zoofílico. Trata-se talvez da aguardada paciente zero

Será que abri os olhos

de Marcella Mattar

Minha irmã dirige o carro numa velocidade desenfreada. Tonta, vejo a paisagem voar, tão rápido quanto estão agora os meus pensamentos.

O gordo

de jessica W. Olivieri

Sempre fui gordo. O amigão de todos, o porpeta, o bola oito, o Faustão, o Buda, o boneco Michelin, o Jô Soares, o Fininho, o Bola... o Gordo. Daí o Faustão emagreceu

Mão de goleiro

de Natasha Centenaro

No gol. Eu disse. Quando ele me perguntou em que posição eu jogava. O olho esquerdo mais próximo à pálpebra fitava-me quase em contra-plongèe

Cinza de monturo

de Lílian Almeida

A urna. Abriu-a junto ao lago do parque. Lágrimas suspenderam um pó fino dentro da caixa. Olhava e não via aquele instante, o passado frio na memória acesa.

Nem um fio de cabelo de dona Clô

de Sara Albuquerque

O instante se arrasta abafado em suas pálpebras. Ele apequena os olhos e posiciona uma das mãos na linha das sobrancelhas, esforçando a meninice para enxergar melhor as cores

Custódio, eu te vi

de Maria Luiza Bueno Benevides

Naquele tempo as professoras eram as freiras e o colégio, exclusivo de meninas. Sem população masculina de qualquer idade, tirando o padre em suas visitas

Homem sem agá

de Marlene de Lima

O dia do analista é hoje, mas não sei se vou. Lembro-me de mim, diante do espelho, em 31 de dezembro de 2003. Depois de percorrer toda a via crucis dos processos físicos, biológicos

Poemas avulsos

Bolhas-PLÁSTICO

de Julie Fank

Madame Nagô

de Talita Rocha

Boa noite a TODAS

de Ana Barbara Neves

Deixa ser carne

de Anelize Moreira

à trois

de Viviane Nogueira

Deixa ficar...

de Anael Santalucia

entre Paul Gilroy e o rap que não fizemos

de Bianca Gonçalves

Malditas moedas turquesas

de Beatriz Regina Guimarães Barboza

Aos homens que usam alguns gramas de analgésico para fingir uma ilusão

de Marcela Maria Azevedo

De pétalas, mil espadas

de Suzel Domini

Ensaios e não-ficção

D'Os beats ao encontro com As memórias de uma beatnik

de Mariana Paim

Comprei a coletânea em quadrinhos Os beats há anos atrás, movida ainda pela fagulha rebelde que havia sobrevivido a adolescência

Grey's Anatomy e a política do ¯\_(ツ)_/¯

de Raquel Parrine

Este texto contém todos os spoilers possíveis e imagináveis da série Grey’s Anatomy, até a 12a temporada. Leia por sua própria conta e risco.

Ao despertar já era outra

de Jéssica Menzel

Estava tão em êxtase que poucas lembranças restaram da viagem à Tailândia. Subiu às nove da manhã para o sexto andar e tomou café. Depois desse horário, nenhuma refeição pode ser feita.

Em defesa da dúvida

de Ananda Vargas Hilgert

Tenho escrito sobre feminismo há dois anos e preciso confessar algo importante: eu vivo em dúvida e me sentindo culpada quando não sei me posicionar sobre algum assunto feminista

A arte de Bispo do Rosário e os saberes da loucura

de Stephanie Boaventura

Arthur Bispo do Rosário, negro, sergipano, empregado em um casarão de família abastada, perdeu, em determinada noite, a capacidade de distinguir experiências reais das imaginárias.

 

 

Duas poetas latino-americanas

Chora-me ausente mas não perdida

Poemas de Adela Zamudio, tradução de Aline Rocha

Cuerpos/Corpos

Poemas de Maria Auxiliadora Alvarez, tradução de Ellen Maria Vasconscellos

Coletâneas de poemas

Quando você me perguntava sobre o rio grande como o mar

de Mariana Ruggieri

No açougue da avenida padre pereira e outros poemas

de Pilar Bu

Dilemas de uma feminista acadêmica

de Yasmin Nigri

Muro

de Marianna Viana

Bílis e outros poemas

de Luciane Lopes

Para amanhã e outros poemas avulsos

de Mariana Paim

Sol de Coyoacán

de Bárbara Lia

Panorama e outros poemas

de Clarissa Macedo

Três poemas indignados e uma canção de amor

de Silvana Guimarães

Cor do pecado e Maria

de Blenda Pereira

Creisi e Lummy Bear

de Carla Diacov

Mi dificultad de mirarte os olhos

de Paola Santi Kremer

Noturno no campo e outros poemas

de Laís Araruna

Ama/dor/a

de Diedra Roiz

Deslize e Fluxo

de Anna Luiza Terra

Via crúcis e A náusa da criação

de Lana Maciel

Romântica e Stela

de Geruza Zelnys

Nenhum deles valia a pena de um poema e outros poemas

de Isadora Xavier

Tríade trêmula

de Claudia Marczak

Rupturas

de Monica Marques

Vasculhando amor

de Laura Vainer

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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