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La Ruta 14

Conto de Vilto Reis

 

“Fosse mijar?”, o estranho me perguntou ao voltar para o carro.

“O cara te multou?”, eu quis saber.

“Tens dez segundos, ali atrás mesmo.”

Saí do veículo na mesma hora. Conhecia meu irmão, se dependesse dele, depois do que aconteceu, me abandonava em outro país. Esvaziei o joelho e na volta para o carro, percebi que ele bateu o porta-luvas antes que eu entrasse.

“Nem pense em abrir”, Murilo disse assim que me sentei.

“A multa foi por excesso de velocidade ou transitar com farol apagado?”, perguntei.

“Foda-se, dei meu jeito”, respondeu meu irmão, esbanjando a arrogância que surgiu entre a gente após a treta de Buenos Aires.

Ainda dentro da Argentina, rodamos em silêncio por uns seiscentos quilômetros, sempre por “la Ruta 14”, como dizem os portenhos. Diferente do asfalto da rodovia, puta bom, o cenário entre Zarate e a província de Entre Rios é pé no saco, planícies conhecidas como lomadas. De vez em quando, surgia uma placa sempre com a mesma frase, Las Malvinas son Argentinas. Murilo dirigiu por umas seis horas seguidas. Só parou em Uruguaiana, na primeira cidade do Brasil após a fronteira. Estacionou em um posto de gasolina, deu uma olhada atravessada para mim e saiu correndo para o banheiro. Ao retornar, perguntou se eu não abri o porta-luvas.

“Claro que não.”

“Depois daquilo, nunca
mais confio em ti”, disse.

Lembrei do que vi escrito na embalagem de um lanche na Argentina,  La alegría es brasileña, pero la pasión es argentina. Depois voltamos direto para Porto Alegre. Quando saí do carro de Murilo e me despedi, não sabia que não nos veríamos pelos próximos dez anos. Opção dele.

  

Estava limpando uma Olivetti Lettera 32, longe de sacar como acabaria um enredo tão complicado. Dino, camarada meu e dono de um antiquário, me presenteou dizendo que talvez eu gostasse de ter a máquina de escrever como decoração. O telefone tocou, mas demorei um pouco a atender. Assim que ouvi a voz feminina doutro lado da linha, soube com quem falava. Ainda que se passassem cem anos, não esqueceria da vozinha rouca de Magnólia.

Após nos despedirmos, não consegui voltar a limpar a Olivetti. Tremia. Deixei a máquina num canto. Sentei no sofá tomado pela certeza de estar diante de uma armadilha.

Naquela terça-feira, dois de novembro, pouco antes das 20h, Magnólia e Murilo me receberam com uma tranquilidade que me deixou ainda mais nervoso. Evitei elogiá-la e não mencionei ao me irmão que havia engordado. Ele me censurou por atrasar, ainda que eu não estivesse atrasado. Caí na besteira de mencionar as flores escuras sobre a mesa quando nos sentamos, ao que Magnólia me respondeu serem símbolo de seu luto, “hoje é aniversário da morte de meu tio”, ela disse. Quando ela saiu para buscar alguma coisa na cozinha, Murilo se inclinou em minha direção por cima da mesa e sussurrou, “lembra do cara que multou a gente naquele dia? Era ele!” Assim que eu me preparava para questionar do que ele estava falando, minha cunhada voltou à sala de jantar. Então me contive e perguntei a Magnólia qual o cardápio da noite. Como se estivesse em uma propaganda de cosméticos, com sensualidade, disse, “muita salada, arroz, papas, carne de chivito e também choripan, como não podia faltar”. Acrescentou que o vinho era um “tinto, Ventisquero Clásico Carménère, safra de 2012.”

Murilo tomou um gole. Após um ritual de cheirar e gargarejar, disparou, “hum, excelente, bastante aromático, com um toque de baunilha. De corpo médio, com a especiaria em primeiro plano e as frutas vermelhas em segundo.”

Quase deixei escapar um “cacete”, pois enquanto ele falava, saquei o que tinha no porta-luvas. Por precaução, perguntei a Magnólia como seu tio morreu. Ela emendou uma história de sua família ter tradição em cargos no governo, porém com os golpes militares na argentina, entrou em uma decadência tal que passaram ocupar cargos como o de seu tio quando morreu, policial federal. Olhei para meu irmão e ele piscou para mim, filho da puta.

Do nada, Murilo deu um grito, chamando, “Juan, venha cá”.

Antes que eu pudesse desmascará-lo, um menino veio de outro cômodo, correndo e gritando.

“Juanito, este é seu tio”, Magnólia disse.

Para disfarçar o quanto aquilo tudo me parecia loucura, cumprimentei o menino e o convidei para uma queda de braço. Ele venceu. Sempre quis ser um tio legal. Mesmo assim, notei que Murilo não estava feliz com a brincadeira toda. Parecia um pai enérgicou. Procurei captar nele um significado para aquilo tudo, contudo meu irmão não possuía mais aquele ódio na cara dos velhos tempos. Para mim, sua mensagem era uma só, “eu mudei, apesar de tudo, veja só o que tenho”. Ele confessou seu crime, mas eu não podia destruir o que estava à minha frente.

Durante o jantar, soube que se abriu um abismo entre as pessoas que éramos há dez anos e as que nos tornamos. Mesmo assim, não me sentia à vontade, embora saboreando a comida fina, bem diferente dos improvisos prepararados por mim. Chimichurri irrigado sobre a carne, tempero apimentado que sempre me agradou. Magnólia instigava Murilo a falar sobre os avanços de sua empresa, como se isso justificasse algo. E eu assentia com a cabeça, como se alguma coisa do que ele dissesse me interessasse. Meu irmão não foi tão agradável quando falei de meu emprego, me dizendo que eu devia arrumar algum trabalho sério. Durante o silêncio que se seguiu, por um momento, pensei em questionar o que havia dentro do porta-luvas, a prova do crime, mas não tocamos no assunto da viagem.

Quando me despedi, tive inveja de Juan, brincando no tapete da sala, alheio a tudo, confiante na segurança de sua família. Na saída, Murilo me deu um abraço mecânico, e Magnólia um beijo rápido no rosto. Apenas Juanito me abraçou com vontade. Os olhos do menino se cravaram em mim. Segurei uma lágrima, pois percebi tudo. O resultado do que fiz a meu irmão em Buenos Aires estava diante dos meus olhos.  O pequeno era inocente. Nós, os culpados por tudo, por toda a maldade no mundo.

Meu consolo foi que de alguma forma ele sabia, sabia ao me abraçar. E um dia, ele também seria culpado em uma trama complicada, como todos os adultos.

 

 

 

 

 

 

Inverno 2015 / Não sobre o amor

Vilto Reis

Vilto Reis é editor e idealizador do site Homo Literatus, além de apresentador do podcast 30:MIN, da série de vídeos A Arte de Contar Histórias Por Escrito e do LiteratusTV – programa sobre literatura transmitido pela NBR em rede nacional. Tem contos publicados na Revista Flaubert, no portal hispânico Cuento Colectivo e em 2015 foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura na categoria romance.

Site do autor

www.homoliteratus.com

 

 

   

Raimundo • Nova literatura brasileira

Quem somos? A Raimundo abre as portas para novos autores e atores da literatura brasileira, entre contistas, poetas, tradutores e ensaístas. Criada em 2014 com proposta de ser uma revista de edição trimestral, pretende acolher obras que pouco encontraram abrigo nos ainda apertados espaços do mundo editorial brasileiro.

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