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Banho quente

Conto de Marcos Vinícius Almeida

Eu não aguentava ficar longe da Luana. Essa que é a verdade.

Mas a Luana morou com um cara, dois anos antes, e as coisas não saíram muito bem. Ela odiava rotina. Disse que não queria pular etapas. Essas coisas. Essas coisas que todo mundo diz.

Contra a resistência dela, foram quase dois anos argumentando que ela não podia generalizar as coisas. Cada caso é um caso, sempre. E que, embora os relacionamentos anteriores evitem que a gente cometa alguns erros vulgares, não dá pra tomar a coisa como cartilha pro resto da vida. Não dá pra controlar tudo. E você não é a mesma Luana de quatro anos antes, e eu não sou esse outro cara com quem você morou junto.

Joguei as caixas dela na sala do meu apartamento, abri um vinho e coloquei She lost control pra tocar. E a gente meteu por três horas no sofá e depois ficou conversando sobre como ia ser dali pra frente.

Eu tinha arranjado um emprego como auxiliar de biblioteca numa universidade ali do bairro mesmo. Quando quitasse umas contas antigas, tinha planos de terminar a faculdade. A Luana coordenava um grupo de teatro com viés social. Percorria as escolas da periferia dando oficinas e apresentando espetáculos, enquanto eu passava o dia imprimindo comprovantes de empréstimo e devolução. Eu acionava o piloto automático. Passava o dia tentando visualizar minhas mãos esfregando as costas brancas e cheias de pintas da Luana.

A água quente do chuveiro caía sobre nossos corpos, nos envolvendo numa bolha de vapor que nos exilava de todo o resto.

Eu achava que era a melhor fase da minha vida.

Esse tipo de coisa que a gente acha, uma hora ou outra.

Mas tinha essa amiga da Luana, a Cléo, que frequentava sempre o nosso apartamento. A Cléo sempre ligava falando de uma festa LGTB, um novo bar mexicano, um festival de bandas com sopro. Adolescentes tardios com mais de trinta e cinco anos ainda sob a tutela dos pais, fedendo a maconha, camisa xadrez, óculos escuros, fotos com filtro e barba desleixada. Coisa do tipo.

Sou um sujeito tolerante. Juro. Mas uma mulher com trinta e tantos anos cujo único assunto é festa e bares — adolescentes tardios, ativismo de sofá — deixa qualquer um entediado. Talvez porque eu tenha sido um cara precoce. E desde quatorze anos não tenha feito outra coisa a não ser beber e me preparar pra próxima festa, sábado, feriado. Como se a fruição da vida fosse — exclusivamente — sábados, festas, feriados. A única preocupação era discursar sobre liberdade, sobre não se prender a nada, aproveitar o momento. Mas, aos vinte e poucos, olhava aquela merda toda com um tédio desgraçado. Não suportava essa imposição de ter que participar de tudo e não se envolver com nada. Não queria tapar o silêncio da vida com o ruído das festas, barulhos de copos. Suor. Risadas.

Eu achava que era a pior fase da minha vida.

Esse tipo de coisa que a gente acha, uma hora ou outra.

Eu olhava pra Cléo, beirando os quarenta, movendo as mãos enrugadas no outro extremo da mesa, falando sobre a festa que ia acontecer não sei onde, e só via a boca se mexer como se fosse uma maritaca falando coisas sem nexo, exatamente como eu era, dez anos antes, aos vinte e poucos.

A primeira vez que a Luana se atrasou pra chegar em casa eu não disse nada. Acordei com o barulho dela esbarrando na mesa da sala. Entrou no quarto com dificuldade e eu achei que a melhor coisa a fazer era fingir que dormia.

Ela teve muitas dificuldades pra acender a luz. Então me levantei. Disse que estava tudo bem. Tirei suas roupas, sapatos e a levei ao banheiro. E debaixo daquela bolha de vapor acariciei suas costas brancas cheias de pintas. Eu disse que ela não precisava se desculpar, que estava tudo bem.

Ela respirava profundamente quando retornei ao quarto. Por um tempo, fiquei de pé, olhando, segurando aquele prato de sopa quente sem saber muito bem o que fazer. Sempre gostei de vê-la dormir, ouvir sua respiração lenta e prolongada, mexer no seu cabelo enquanto o ar vazava do seu nariz, tocar seus lábios semisserrados e contemplar seu rosto. Um tipo de egoísmo que me acalmava.

Levei a colher até sua boca, e outra vez ela quis se desculpar.

“Tudo bem”, eu disse.

De manhã, perguntei se ela estava com ressaca e rimos muito quando ela disse que não. A gente se despediu na portaria do prédio. Fui trabalhar pensando que aquilo tudo era uma grande bobagem.

Na semana seguinte foram duas vezes. Na outra semana, mais duas. Na terceira semana foram três. Mas eu sempre achava que a melhor coisa a fazer era deixar a consciência dela resolver. Detestava esse tipo de discussão. Não me sentia confortável pra chegar na Luana e dizer: não quero que você faça isso. Eu conheço a Luana. Mesmo que fosse apenas uma concessão, em prol do bem-estar do nosso relacionamento, eu temia que, aos ouvidos dela, qualquer tipo de pedido dessa natureza soasse como proibição. E a Luana tinha pavor de proibição.

Encontrei a Cléo no nosso apartamento numa quinta-feira. Abri a porta e ela me deu um abraço afetuoso, depois incorporou aquele sorriso inabalável de vendedor de automóveis. Sentamos no sofá e eu perguntei se ela queria beber alguma coisa. Ela disse que não, porque tinha bebido muito, ontem, e que hoje só água mesmo.

“Tudo bem”, eu disse.

A Luana chegou em seguida e elas se abraçaram. Então a Cléo disse que precisava contar uma coisa muito importante pra Luana e elas se enfiaram no quarto. Enchi uma taça de vinho e fiquei na varanda olhando os carros, lá embaixo na rua, parando e avançando o sinal.

Saíram do quarto rindo e se calaram ao entrarem na sala. Eu me aproximei sem dizer nada. Enchi mais uma taça de vinho e me sentei no sofá.

“Como vai a biblioteca, Antônio?”, Cléo disse.

“Normal.”

“Deve ser barra, às vezes, não? Nossa, lembro dos caras da biblioteca da PUC se matando pra atender o pessoal na minha época.”

“Às vezes é puxado, mas tudo nessa vida é puxado.”

“Ah, mas é temporário”, Luana disse. “Logo ele volta a estudar e arruma coisa melhor.”

“Claro, claro...” E olhando pra mim: “Era Publicidade que você estudava?”

“Jornalismo.”

“É uma profissão interessante...”

Eu sorri sem dizer nada e elas também não disseram mais nada.

Levantei e enchi minha taça mais uma vez.

“E lá no banco, Cléo, como estão as coisas?”

“Ah, é aquela correria, né? Mas eu gosto daquele ambiente.”

Sentei no sofá abraçando a Luana.

“Não vão me acompanhar no vinho? Assim eu fico bêbado.”

Elas riram.

“Hoje não”, Cléo disse. “E não gosto de beber em casa, sabe? Quando eu bebo gosto de me movimentar, sei lá, gosto de beber em lugar cheio de gente. Sempre foi assim.”

Deveria beber dentro de um ônibus, às seis e meia da tarde, cheio de caras suados e senhoras cheias de sacolas de supermercado, mas eu não tive coragem de dizer isso.

“Entendo”, foi o que eu disse.

“Não vejo graça em beber assim.”

“Eu também não gosto muito”, disse Luana.

“Engraçado, eu não consigo mais é beber em lugar cheio de gente, principalmente gente estranha. Só de pensar já me enche de preguiça. A não ser quando é alguma coisa assim, junto com a Luana, ou com raros amigos, bem chegados, mesmo. Depois de um tempo, não sei, a gente procura é reconhecimento, sabe, não mais essa coisa de exploração.”

Luana me encarou.

“É, cada um gosta de uma coisa, né? Isso que é legal na vida, cada um pensa de um jeito, sem certo nem errado, só diferente. Tudo é bem relativo.”

“Nem tudo é relativo, Luana.”

“A maioria das coisas, pelo menos”, disse Cléo.

“Não sei, certas coisas não têm como.”

“Por exemplo?”

Elas me encararam esperando que eu falasse alguma coisa. E eu precisava dizer alguma coisa. Mas me deu um branco e aqueles poucos segundos de silêncio pareciam se dilatar e escorrer indefinidamente. Eu podia sentir o vermelho do nervosismo tomando conta do meu rosto, o pé esquerdo batendo no chão, a mão direita indo até a cabeça e coçando o nariz, descendo até o cotovelo do outro braço, que segurava a taça, então bebi um gole de vinho pra ganhar tempo, dissimulando o ar de quem sabia exatamente o que ia dizer, que estivesse apenas escolhendo a palavra, a frase certeira, mas eu não estava preparando nada. Não tinha merda nenhuma na minha cabeça.

“Morte, por exemplo”, veio num estalo. “Morte não é relativo. Não importa o contexto, a forma, o meio, nada. Morte é morte.”

“Bom, mas por definição”, disse Luana, “a morte está completamente fora da vida.”

“Pra quem morre...”, eu disse, “pra quem morre realmente a morte não existe, mas pra quem fica, a morte nunca vai embora.”

O ruído dos carros lá embaixo chegou até o apartamento.

“Não vão beber mesmo?”, eu perguntei.

Sacudiram a cabeça e eu não insisti mais.

Cléo se despediu pouco tempo depois. Disse que passava por aqui no sábado, uma inauguração de um novo pub de um conhecido dela.

Ok. Tudo bem. Mas é claro.

E só aí percebi o quanto tinha bebido. Já ali revirando o armário. Queria beber mais, mas a garrafa de vinho tinha acabado. Tinha certeza que tinha comprado outra. Certeza. A Luana foi se deitar. Eu disse que talvez fosse até a loja de conveniência buscar outra garrafa.

Ela não disse nada.

Estava fresco lá fora. Desci sem casaco e caminhei devagar pela calçada. Acendi um cigarro e pensei que, em vez do vinho, talvez eu devesse comprar uma vodca. Mas seria loucura tomar vodca àquela hora.

Ia me ferrar no dia seguinte.

De longe, eu vi duas moças bebendo perto de um carro, sozinhas. Ouviam uma dessas músicas moderninhas com riffs circulares de guitarra, bateria eletrônica e vocal rasgado. Acho que era The libertines. A moça da esquerda, eu reconheci de cara. Trabalhava comigo na biblioteca. O nome era Marcela, embora a gente nunca tenha ultrapassado a fronteira do bom dia e do até amanhã. A outra eu nunca tinha visto.

Sorri. Marcela sorriu de volta. Entrei na loja e fiquei espiando as garrafas. Saí com a garrafa dentro da sacola e elas ainda estavam lá.

“Perdido por aqui, Antônio?”

“Eu moro logo ali atrás.” Enfiei a mão no bolso e puxei um cigarro retórico, minha defesa perante a timidez que avança nesse tipo de situação: “No Evidence III. Aquele de portão amarelo alto, sabe?”

“É mesmo? Eu moro três quadras pra frente, no Europa Master, ao lado daquela academia de dança, sabe?”

“Sei, claro que sei.”

“Essa é a Rafa, a gente tirou a noite pra curtir. A Rafa terminou com o namorado.”

Não havia muita gente naquele lugar. Um carro abastecendo, uma ou outra pessoa que saía da loja de conveniência e avançava pela rua.

“Que isso? Vodca?” E erguendo minha sacola: “Nossa, tá animado, hein?”

Eu ri e elas riram também.

“A gente tá indo pra uma balada bem da hora”, disse Marcela.

Enfie-me no banco de trás. Marcela dirigia e a Rafa ia mexendo no som e bebendo. Abri a vodca e fui bebendo no gargalo e não queimava tanto. Talvez por causa da música alta vazando atrás de mim, as luzes dos carros que cruzavam nosso caminho, essa sensação de gratuidade, a ingênua alegria de se entregar a algo não planejado.

O carro parou num sinal. Marcela pediu que a Rafa pegasse o negocinho no porta-luvas. A Rafa puxou um pedaço de espelho, quadradinho, e dois cartões de banco.

“Você não é careta, né, Antônio?”, disse Marcela.

“Não, não sou.”

Raio. Faiscada.

Como se a boca dormente diminuísse de tamanho ou minha arcada dentária se dilatasse, empurrando os dentes uns contra os outros, a vodca desceu feito água. E o tempo fluía apartado do momento seguinte, aparentemente abolido. E talvez fosse a abolição do tempo a fornecer aquela impressão (verdadeira ou não) de clareza excessiva. Alguém que observasse as coisas desde um ponto privilegiado no espaço.

A Rafa começou a falar do tal do namorado. E o tal do namorado da Rafa parecia um estereótipo de canalha. Ciumento, sem educação, o escambau. E eu pensei comigo, como vazando da boca dos outros, qualquer um de nós, quase sempre, se transforma num estereótipo. Quando falamos de alguém (quando simplesmente falamos) é sempre de um lugar específico, defendendo nossos interesses e valores, sempre focalizando as características que nos interessam, as que nos são mais convenientes.

E como não poderia ser diferente, logo assumi o discurso mestre zen de cem anos, vestindo aquele ar superior de economista de telejornal comentando a alta do dólar em função da crise do petróleo. Concordava com ela e ia esclarecendo alguns pontos, elucidando as falhas do namorado (que nunca tinha visto), feito um engenheiro que explicasse a intricada mecânica de uma caixa de câmbio. Apresentei soluções efetivas, busquei exemplos pessoais. Fui construindo um painel abstrato que representasse com precisão quais deveriam ser as atitudes corretas de um homem e de uma mulher diante de um relacionamento. E, claro, da forma como eu falava, eu estava dentro daquele painel. Era o exemplo vivo daquilo.

“Tua namorada tem muita sorte”, Rafa disse.

Eu sorri sem graça e bebi mais um gole de vodca.

Meus dentes estavam vivos. Queriam sair da boca e correr uma São Silvestre. Estavam se aquecendo, era isso.

A balada era na casa de um amigo da Marcela, artista plástico e DJ, ou coisa do tipo. Na frente, um muro de três metros. No quintal, o pessoal dançando espalhado no gramado. Braço pra cima, roupa colorida. Uns malucos rodando badulaques, girando cacarecos, uns até cuspindo fogo. Da varanda da casa, onde ficava a pick up, vazavam feixes de luz colorida, laser, fumaça, o escambau.

Bem legal, eu pensei.

“Fica à vontade, Antônio”, disse Marcela. “Você é meu convidado.”

Eu estava à vontade, embora me sentisse malvestido. Não era malvestido, era um tanto quanto afastado, esteticamente estrangeiro. Como se chegasse de bermuda de surfista num tribunal, ou armadura medieval dentro de um ônibus de jogadores de handebol. Mesmo que cada uma das pessoas ali tentasse se afirmar num estilo muito singular, muito próprio — a um estrangeiro como eu, enfiado na minha boa e velha calça jeans e camiseta branca —, elas estavam rigorosamente uniformizadas, padronizadas, fechadas em um repertório de referências que me escapava por completo.

Marcela me apresentou o tal do DJ artista plástico e foi uma coisa tão rápida, no meio daquela barulheira, que mal me lembro o que falei. E muito menos do nome do tal DJ artista plástico, ou sei lá o quê.

Vou chamá-lo de Orlando, só pra facilitar as coisas.

As meninas sumiram na festa do Orlando. Mas eu só dei falta delas quando saíram de um quarto, nariz fungando. No intervalo em que as meninas sumiram, fiquei enfiado num sofá. Sei lá por quanto tempo. Conversando com um cara de óculos amarelo que tinha acabado de voltar de uma viagem de quatro dias por Buenos Aires. O cara estava também com o nariz escorrendo e mascando um chiclete. Ele me contou com um sotaque enovelado que os pais dele tinham vindo da Bolívia há vinte anos, sob a tutela de um explorador de trabalho escravo, e que depois de muita luta, trabalhando quatorze horas por dia em um porão no Ipiranga, voltaram para a Bolívia e compraram uma casa e montaram um mercado na periferia de La Paz. Eles tinham mandado o cara de óculos amarelo pra São Paulo estudar. Mas o cara não queria estudar engenharia. O sonho dele era ser ator, mas a timidez não deixava. Eu não sabia muito bem o que dizer. Eu queria realmente dizer ao cara que eu entendia, mas fiquei o tempo todo papagaiando clichês sobre a visão rasteira e preconceituosa da classe-média urbana paulistana e seus valores arraigados no sagrado tripé do cristianismo, malufismo, consumo e publicidade.

A Rafa me pegou pelo braço e entramos no banheiro. Sacou o espelhinho, os dois cartões de banco e o negocinho. Despejou um montinho grande, depois foi repartindo.

“Segura meu cabelo pra mim?”, ela disse, se inclinando.

Eu enfiei a mão atrás da nuca dela e segurei. Meus dedos resvalavam na pele macia da nuca dela, e ela ergueu a cabeça num golpe, levou a mão ao nariz como se estivesse levemente gripada, e só então eu reparei na beleza dos olhos dela. Eram grandes, escuros, feito duas manchas negras, incrustadas numa bola de leite.

“Nossa... tô muito loca...”

O grave do som lá fora vibrava sob meus pés. E em vez de pegar a nota enrolada em forma de canudo da mão dela, agachar e desaparecer com as duas carreiras, encostei a Rafa na parede.

Aproximei meu corpo do corpo dela. Enfiei minha perna no meio das pernas dela. Acariciei a nuca enfiando os dedos no cabelo. Avancei até sua boca, mas não a beijei. Não sei o que houve. Fiquei parado, encostado, sentindo-a respirar pela boca. E bastava dar mais um passo (de onde, talvez, não houvesse mais retorno), mas não dei.

Ela quem deu.

Puxou minha cintura e minha boca caiu nos lábios dela e logo minha língua avançava praticamente atolada dentro da garganta dela. Cravou as malditas unhas nas minhas costas, enquanto eu desabotoava a calça dela, porque me veio esse impulso de me ajoelhar, ajoelhar e enfiar a boca no meio das pernas dela. Ela pressionava minha cabeça com força, contra as coxas, não totalmente abertas, porque a calça não tinha saído de todo. E sei lá quanto tempo passou quando começaram a bater na porta do banheiro. Só sei que eu não podia parar. Podiam arrebentar aquela maldita porta que eu não ia parar. E ela começou a dizer para, a música chegava abafada lá dentro, batiam seguidamente na porta, mas eu não podia parar. Ela sussurrava “para”, mas não, eu não podia parar. Meu queixo todo lambuzado, e escorrendo pela boca, o cheiro, a pele macia da coxa dela apertando meu rosto feito um alicate se fechando. E eu não podia parar, de jeito nenhum. Era a Marcela gritando e batendo na porta lá fora e a Rafa seguia pedindo que eu parasse, mas não se afastava, não me empurrava, não fazia merda nenhuma. Permaneci com a boca enfiada no meio das pernas dela, todo lambuzado, a coxa apertando meu rosto, as duas mãos atarracadas na minha cabeça. Eu não podia parar, de jeito nenhum, se ela não me empurrasse pra trás.

Ela me encarou enquanto subia as calças, e eu pensei que talvez tivesse de dizer alguma coisa. Talvez fosse isso o que ela esperasse de mim. Qualquer coisa. E eu não disse nada. Só continuei olhando. Até que ela desviou os olhos.

Fui até o vaso e dei fim ao negocinho.

Marcela entrou e fechou a porta e foi como se a porta não tivesse sido aberta, de tão rápido. Abriram outro negocinho. Filetes brancos se estenderam generosos sobre o espelhinho. E daí em diante, notas em forma de canudo passando de mão em mão. Raio. Faiscada. E uma conversa (ou três monólogos em colisão), sobre os mecanismos do desejo ou coisa que o valha, prosseguia como se nunca fosse acabar. Marcela defendia o autocontrole, eu explanava sobre a aceitação do compromisso enquanto afirmação da liberdade. E a Rafa, me encarando, argumentava que a felicidade é seguir o fluxo e praticar cotidianamente o desapego. O tom excessivamente lúcido e coerente daquela conversa, trancados naquele banheiro e com o nariz escorrendo, só seria superado, talvez, por três dementes num pátio de hospício, debaixo do sol.

A conversa foi interrompida por batidas na porta. Era o Orlando e o futuro engenheiro boliviano de óculos amarelo. Saímos e paramos no gramado. O número de pessoas tinha diminuído e talvez por isso aquelas luzes vazando da varanda cortassem o ar obsoletas. Um cara cambaleava no meio da pista, tentando inutilmente esboçar passos de uma dança. E mal conseguia parar de pé, o pobre diabo. Fechava os olhos com força e erguia os braços meio arqueados, finos, os dedos esticados e retorcidos. Arrastava o pé de um lado a outro, sobre o gramado, tentando conectar os movimentos do corpo ao ritmo da música. Mas o fosso entre os joelhos se dobrando, os braços se movendo e a cabeça torta sobre os ombros encurvados me pareceu infinito.

Então eu queria estar em casa e mais nada.

“Vai demorar muito?”, perguntei.

Enfiei-me no banco de trás, e dessa vez me causava um mal-estar tremendo aquela música alta. O que eu ia dizer a Luana? Peguei a garrafa de vodca e fui tomando uns goles curtos, enquanto o carro avançava no rumo de casa. Mas as meninas logo acenderam um baseado. Se não fumassem, não iam conseguir dormir.

Mal falei tchau pra elas. Pensei em fumar um cigarro ali na rua, antes de entrar. Mas eu não tinha mais cigarros. Podia passar na loja de conveniência e pegar um maço, mas desisti também. Não havia ninguém na rua. Não estava frio, só quieto. O litro de vodca na minha mão parecia me ofender. Sei lá. Então tasquei aquela desgraça no muro, do outro lado da rua. E os cacos se espalharam pelo chão, enquanto o líquido escorria do muro pra calçada.

Passei sem cumprimentar o porteiro e meu rosto no elevador não era dos melhores. Olhos murchos. Encravados no rosto. Boca branca e afundada na cara.

Abri a porta com cuidado. Avancei pelo cômodo escuro, avancei até esbarrar na mesa da sala. Abri a porta do nosso quarto sem fazer barulho, mas tive muita dificuldade pra acender a luz. Meus dedos se embaralhavam no interruptor, que parecia se afastar.

“Amor?”

Parado — olhando —, não havia nada a dizer.

Ela se levantou, me ajudou a deitar na cama. Tirou minhas roupas. Eu respirava com dificuldade e só queria adormecer. Ela me enfiou debaixo do chuveiro. Eu procurava sinais, motivos. Procurava razões e qualquer coisa assim. As pernas tremiam. As mãos meio abobadas. E quando o rosto dela passou na minha frente, ela esticou os lábios e sorriu. Eu só desejava ficar ali. Deixar a água quente cair sobre minha cabeça até que meus dedos enrugassem como a carcaça de um velho de noventa anos.

A Luana me enxugou, me ajudou a vestir o pijama. Ajeitou o cobertor sobre meu corpo e disse que eu precisava dormir. E também ia fazer uma sopinha, eu precisava tomar uma sopinha, uma sopinha ia me fazer muito bem.

Agarrei as costas dela. Apertei contra meu corpo.

Eu podia sentir sua respiração. Pele. O calor.

E não podia soltar, de jeito nenhum.

Eu não aguentava ficar longe da Luana. Essa que é a verdade.

 

 

 

 

Outono 2015 / 26 textos para serem lidos no transporte público

Marcos Vinícius Almeida

 

Marcos Vinícius Almeida nasceu em 1982, em Taboão da Serra, mas viveu desde sempre em Luminárias, interior de Minas Gerais. Morou também em São João del-Rei (MG), onde cursou Filosofia, sem concluir, e em Porto Alegre (RS) por um tempo. Hoje, mora em São Paulo e cursa o último ano de jornalismo. Publicou textos de ficção em revistas e jornais, como a revista Cult, Suplemento Literário de Minas Gerais, Jornal Opção, Revista Bula e portais como Cronópios e Germina. Também em algumas antologias. Foi um dos laureados no Prêmio Ufes de Literatura, em 2010. É autor do romance Inércia (Multifoco, 2009) e a coletânea de contos Quebranto (e-galáxia, 2014).

 

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